sexta-feira, 15 de maio de 2026

A UNIDADE DA TRIU-UNIDADE COMO ITINÉRÁRIO PARA A COMUNHÃO NA IGREJA

 


Antes de haver início ou princípio: Deus.

Deus único, verdadeiro, Um e Uno. Porém, e eis o mistério que funda tudo o mais: Ele nunca esteve só. A solidão jamais habitou a eternidade. Antes da criação, antes do tempo, antes de qualquer coisa que pudesse ser chamada de "antes", Deus já era, e já era comunhão.

É o que a fé cristã confessa sob o nome de Trindade, ou Tri Unidade Divina: Pai, Filho e Espírito Santo, três Pessoas distintas que formam uma única e indivisível Divindade. Não três deuses, mas um só Deus que subsiste em eterna relação consigo mesmo. As três Pessoas sempre existiram juntas: nunca foram separadas, nunca poderiam sê-lo, justamente porque a própria essência de Deus é relacional. Deus não aprendeu a se relacionar: Ele é relação.

Certamente não é algo simples de explicar. Os grandes teólogos da história, de Atanásio a Agostinho, de Capadócios a Karl Barth, dedicaram vidas inteiras a orbitar esse mistério sem jamais esgotá-lo. E talvez seja exatamente aí que reside sua grandeza: o Deus Trino não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser habitada.

O teólogo alemão Jürgen Moltmann, em sua obra A Trindade e o Reino de Deus, propôs uma ideia que abalou o pensamento teológico contemporâneo: a Trindade não é apenas um dogma sobre a natureza interna de Deus, mas um programa social. Se Deus é comunhão perfeita entre as três Pessoas, uma comunhão sem hierarquia opressora, sem dominação, sem exclusão, então essa comunhão se torna o modelo e o convite para toda forma de vida humana em sociedade.

Não é coincidência teológica que sejamos feitos à [imago Dei] imagem e semelhança de Deus. Se o Deus cuja imagem carregamos é, em sua essência mais profunda, uma comunidade de amor, então somos, por constituição, seres comunitários. A solidão não é apenas um mal-estar psicológico: é, em termos teológicos, uma contradição ontológica. Ninguém foi criado para ser uma ilha.

Estamos cercados de pessoas, de seres, de histórias por todos os lados e isso não por acidente, mas por design divino. Por causa da Trindade, somos convidados ou melhor: somos convocados a viver relações de comunhão autêntica: dando e recebendo, construindo juntos uma convivência rica, humana e eticamente fundada no amor que o próprio Deus é.

A Trindade como comunidade torna-se, assim, o mapa teológico mais preciso para as comunidades cristãs. Observe a lógica que emerge daí:

A comunidade cristã que vive em comunhão manifesta a imagem do Deus Tri-uno no mundo. Ela se torna, por assim dizer, um ícone vivo da Trindade, não porque alcançou perfeição moral, mas porque escolheu, dia após dia, o caminho da relação, da reconciliação e do amor mútuo.

Isso implica, inevitavelmente, a outra face da mesma verdade: a comunidade cristã que não vive em comunhão desfigura esse ícone. Ela pode ter doutrina correta, liturgia elaborada e estrutura institucional sólida, mas sem comunhão, não manifesta o Deus Trino. Manifesta outro deus: o deus da solidão, da autossuficiência, do individualismo que não é o Deus do Evangelho.

 

Portanto, assim como Deus é Um em três Pessoas distintas vivendo em perfeita unidade sem confusão, em perfeita distinção sem divisão, Ele se torna o modelo incontornável para que as comunidades cristãs façam o mesmo.

Não uma uniformidade forçada que apaga as diferenças, mas uma unidade que as abraça e as enriquece. Não uma convivência de fachada, mas uma comunhão que desce às raízes do ser.

A Trindade não é apenas o que Deus é — é o que Deus quer que sejamos juntos.

 

"Que todos sejam um, como tu, ó Pai, és em mim e eu em ti."

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Natal de Verdade

 



Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho (δός), e a verdade (λήθεια), e a vida (ζωή); ninguém vem ao Pai senão por mim.

 

João 14.6

O nascimento de algo compreensível é o nascimento do desnudamento do mistério – no ato do espanto, há a nudez do desconhecido. O nascimento de algo compreensível é inicialmente falando, inocente. O olhar inquietante, sonda a verdade.

O Natal é isso: esse olhar inquietante e inquietado que busca algo compreensivelmente novo e verdadeiro. A palavra verdade vem do grego λήθεια [alethéia] esse olhar verdadeiro e que busca a verdade removendo Lethe que é o rio do esquecimento, o rio das trevas. Lethe, na mitologia grega, era irmã de Tânatos, a morte. Quem bebia das águas de Lethe perdia a memória e caia na escuridão impossibilitando a descoberta da verdade. A a-léthe elimina o esquecimento, abre espaço para a Luz e retira a venda dos olhos.

Há algo mais impactante do que o olhar que bebeu das águas de Lethe e o olhar da Alethéia? Alethé é o olhar voraz que corta as águas turvas do esquecimento e promove o espanto e encanto do resgate da autenticidade.

Jesus disse: Eu Sou (...) a verdade.

Ele é a Alethéia ...

É Jesus quem corta as águas turvas do esquecimento. É ele quem resgata a memória, quem livra da escuridão. Quem desnuda a medula soterrada. É ele quem recupera a realidade e resgata a veracidade.

Natal é isso! É o nosso encontro com Cristo Jesus, a verdade verdadeira! A verdade de fato, a alethéia que ilumina o nosso olhar e nos conduz a olhar em seus olhos. Jesus tem esse olhar de recriar o ser humano. Quem olhar em seus olhos, muda – sai das águas do esquecimento (Lethe) e sai das sombras do Hades.

O nascimento de Jesus é isso: um presente de Deus para quem está bebendo das águas de Lethe e deseja beber da água da vida. E quem beber da água da vida que Cristo oferece, nunca mais beberá das águas do esquecimento pois a água da vida que Jesus oferece, jorra para a vida eterna!

E você, neste Natal? Vai beber do rio cujas águas causam esquecimento ou vai beber da água da vida? Hoje, você será cercado (a) por Lethe ou por Alethéia?

Jesus nasceu para te dar Vida e Vida em abundância. Não perca essa oportunidade que ele está lhe dando.

Um Natal Feliz em Alethéia.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

IDADISMO



 O tecido social pode ser sadio ou doentio. O tecido sadio é alimentado pela dignidade humana, pela pratica da justiça, pela educação da empatia e a consciência da alteridade. Isso gera uma convivência pacifica e efetividade sociológica saudável. O tecido doentio é sociopatológico. O tecido doentio é enfermo e faz enfermar. Há várias formas desse tecido doentio manifestar-se e uma delas é através do idadismo. O idadismo é uma forma de preconceito e discriminação que tem como base a idade das pessoas. A partir deste conceito, descobrimos que pessoas com uma "certa" idade são tachadas, rotuladas e desprezadas enquanto sua capacidade de ser ativa e produtiva. A Prática do idadismo é uma forma de lança o outro no ostracismo, no mundo dos insignificantes, na esteira dos inúteis. A prática do idadismo reforça e potencializa o tecido sociopatológico, alimenta a violência e injeta na veia da sociedade a droga do ódio. 

No campo da educação isso é ainda mais grave posto que o problema se instala no berço do desenvolvimento do ser humano. Sabemos que a educação no Brasil é um desafio constante e que os docentes se desdobram para realizarem um trabalho de excelência nesse processo de desenvolvimento epistemológico tão importante para a sociedade. Todos os dias os docentes estão em sala de aula buscando métodos para levarem seus alunos a debaterem os temas sensíveis da sociedade e o idadismo é um desses temas. O desafio está no despertar da consciência de cada estudante levando a compreensão de que todos nós que vivemos em sociedade devemos olhar para o outro e entender que o outro é parte do ambiente onde vivemos e possui o direito a dignidade de viver, trabalhar e buscar as realizações de ser.

Fazer diferença ou agir de forma diferente com o outro por causa de sua idade é dizê-lo que não há espaço na sociedade para ele. É lançá-lo na escuridão tanatológica e na prisão fria da apatia crônica. 

Minha proposta para tal aberração sociológica e o remédio para tentar salvar esse tecido doentio é a INSURREIÇÃO! 

A sociedade cujo tecido é sadio a de insurgir-se de forma sistemática e continua contra esse sistema criado pela sociedade sociopatolócizada. O idadismo é um ato insensível e o ser humano insensível é um ser estupidificado, entorpecido, brutal e impermeável. Uma sociedade assim é uma estrada toxica, cheia de venenos preconceituosos.

Portanto afirmo que insurgir-se é o caminho para combater a prática do idadismo. Como faríamos isso? É simples: denunciar e tornar conhecido os grupos que praticam o idadismo! É dar nomes comprováveis. Não é sair acusando pessoas, mas é denunciar quem comprovadamente cometi tal atrocidade. Assim será possível criarmos uma sociedade sadia e execrarmos esse vírus que promove a ruptura de laços amorosos.