Antes de haver início ou
princípio: Deus.
Deus único, verdadeiro, Um e Uno.
Porém, e eis o mistério que funda tudo o mais: Ele nunca esteve só. A solidão
jamais habitou a eternidade. Antes da criação, antes do tempo, antes de
qualquer coisa que pudesse ser chamada de "antes", Deus já era, e já
era comunhão.
É o que a fé cristã confessa sob
o nome de Trindade, ou Tri
Unidade Divina: Pai, Filho e Espírito Santo, três Pessoas distintas
que formam uma única e indivisível Divindade. Não três deuses, mas um só Deus
que subsiste em eterna relação consigo mesmo. As três Pessoas sempre existiram
juntas: nunca foram separadas, nunca poderiam sê-lo, justamente porque a
própria essência de Deus é relacional. Deus não aprendeu a se relacionar: Ele é
relação.
Certamente não é algo simples de
explicar. Os grandes teólogos da história, de Atanásio
a Agostinho,
de Capadócios
a Karl Barth,
dedicaram vidas inteiras a orbitar esse mistério sem jamais esgotá-lo. E talvez
seja exatamente aí que reside sua grandeza: o Deus Trino não é um
problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser habitada.
O teólogo alemão Jürgen
Moltmann, em sua obra A Trindade
e o Reino de Deus, propôs uma ideia que abalou o pensamento teológico
contemporâneo: a Trindade não é
apenas um dogma sobre a natureza interna de Deus, mas um programa social.
Se Deus é comunhão perfeita entre as três Pessoas, uma comunhão sem hierarquia
opressora, sem dominação, sem exclusão, então essa comunhão se torna o modelo e
o convite
para toda forma de vida humana em sociedade.
Não é coincidência teológica que
sejamos feitos à [imago Dei] imagem e semelhança de Deus. Se o
Deus cuja imagem carregamos é, em sua essência mais profunda, uma comunidade de
amor, então somos, por constituição, seres comunitários. A solidão não é apenas
um mal-estar psicológico: é, em termos teológicos, uma contradição ontológica.
Ninguém foi criado para ser uma ilha.
Estamos cercados de pessoas, de
seres, de histórias por todos os lados e isso não por acidente, mas por design
divino. Por causa da Trindade, somos convidados ou melhor: somos convocados a
viver relações de comunhão autêntica: dando e recebendo, construindo juntos uma
convivência rica, humana e eticamente fundada no amor que o próprio Deus é.
A Trindade como comunidade
torna-se, assim, o mapa teológico mais preciso para as comunidades cristãs.
Observe a lógica que emerge daí:
A comunidade cristã que vive em
comunhão manifesta a imagem do Deus Tri-uno no mundo. Ela se torna, por
assim dizer, um ícone vivo da Trindade, não porque alcançou perfeição moral,
mas porque escolheu, dia após dia, o caminho da relação, da reconciliação e do
amor mútuo.
Isso implica, inevitavelmente, a outra face da mesma verdade: a
comunidade cristã que não vive em comunhão desfigura esse ícone. Ela pode ter
doutrina correta, liturgia elaborada e estrutura institucional sólida, mas sem
comunhão, não manifesta o Deus Trino. Manifesta outro deus: o deus da solidão,
da autossuficiência, do individualismo que não é o Deus do Evangelho.
Portanto, assim como Deus é Um em
três Pessoas distintas vivendo em perfeita unidade sem confusão, em perfeita
distinção sem divisão, Ele se torna o modelo incontornável para que as
comunidades cristãs façam o mesmo.
Não uma uniformidade forçada que
apaga as diferenças, mas uma unidade que as abraça e as enriquece. Não uma
convivência de fachada, mas uma comunhão que desce às raízes do ser.
A Trindade não é apenas o que
Deus é
— é o que Deus quer que sejamos juntos.
"Que todos sejam
um, como tu, ó Pai, és em mim e eu em ti."